nepente

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As folhas secas estalam sob meus pés descalços. O vento frio bagunça o meu cabelo e eu desdobro-me, sentindo o meu interior voar e dispersar-se. Para o novo, é necessário desfazer-se. As cicatrizes finas vão se mudando e desaparecendo; as memórias, doloridas, finalmente vão dando lugar para o presente acontecer e se modelar. Minha voz, antes rouca e dolorida, vai se transformando em um constante ritmo de uma gargalhada. As lágrimas, que já secaram há muito, deixam no meu rosto o espaço para sorrir e sonhar. Eu fecho os olhos e mentalmente me transporto para perto de quem curou todas as minhas dores. Nas minhas lembranças, apenas o dedilhar de sonhos das suas mãos. 

posted 2 weeks ago

baby i’m sure

Falo tanto das minhas próprias cicatrizes que deixei de notá-las como o que são: cicatrizes, passado. Há alguns dias minhas manhãs parecem mais claras, menos tortuosas, menos doídas. Eu sorrio sem motivo. As cartas do meu baralho vão se ajeitando para formar um castelo de cartas que é mais resistente do que tudo. O futuro se estende, as linhas desenham-se além de onde consigo enxergá-las e eu sei que esse é o momento. Danço nos tons pastéis da manhã, mesmo com a sua ausência, pois sei que nos encontraremos nos acasos e nas ocasiões da vida. 

Fazia já algum tempo que eu não sentia meu coração tão em paz <3

posted 1 month ago with 1 note

"

The greatest satisfaction you can obtain from life is your pleasure in producing, in your own individual way, something of value to your fellowmen. That is creative living!

When we consider that each of us has only one life to live, isn’t it rather tragic to find men and women, with brains capable of comprehending the stars and the planets, talking about the weather; men and women, with hands capable of creating works of art, using those hands only for routine tasks; men and women, capable of independent thought, using their minds as a bowling-alley for popular ideas; men and women, capable of greatness, wallowing in mediocrity; men and women, capable of self-expression, slowly dying a mental death while they babble the confused monotone of the mob?

For you, life can be a succession of glorious adventures. Or it can be a monotonous bore.

Take your choice!

"
— Neil Gaiman
posted 1 month ago

Anytime, anywhere

O tempo desdobra-se, preguiçoso, torturando-me com a sensação de não estar no controle. Eu sinto o toque doce das lembranças em minha pele, cada dia menos intensamente. Antecipo o momento em que a realidade se fará momentânea e meu coração arrítmico escapa suas batidas de sempre, enquanto me sufoco nas sensações que eu não tenho. Os dedos das memórias dedilham o contorno das minhas costas nuas enquanto o tempo continua me mostrando minha impotência em relação a ele. O tempo me diz que sou dele, apenas dele. Resta-me apenas contar os dias e esperar que os monstros embaixo da minha cama não acordem quando eu sair. 

posted 2 months ago with 2 notes
#?

tags: suicide comtemplation

A sociedade nos trás um aspecto interessante: a idolatração de um modelo onde somos completos e quebrados, procurando por outras existências quebradas e repartidas para finalmente tornar-se uma coisa. Pois sem estas existências complementares, você é permanentemente algo em manutenção e construção. Pegue os seus pedaços no chão e monte um quebra-cabeça com os pedaços alheios, até ver que as peças não se encaixam (e nem nunca vão se encaixar). Enquanto você não aceita seu vazio, você procura a fantasia das peças se encaixando, da superfície plana, da vida sem cicatrizes, das mãos não calejadas, do sangue que não preenche a banheira. 

Você é a pessoa favorita de alguém?

O quão certo você está disso?

O quanto você pretende existir após o choque frio violento com a realidade?

posted 3 months ago with 1 note

maggie and milly and molly and may

went down to the beach(to play one day)

and maggie discovered a shell that sang

so sweetly she couldn’t remember her troubles,

and milly befriended a stranded star

whose rays five languid fingers were;

and molly was chased by a horrible thing

which raced sideways while blowing bubbles:

and may came home with a smooth round stone

as small as a world and as large as alone.

For whatever we lose(like a you or a me)

it’s always ourselves we find in the sea

- E. E. Cummings

posted 3 months ago

mais um ensaio sobre aquários, com a participação de paloma

havia uma previsão de não vida, datada para um ano. os dias se passaram, preenchidos com todos os desenhos de meus anseios. via o vidro do aquário se fechando e me sufocando a cada dia. eu não havia sido feita para o mundo adulto. 

do dia dos meus 12/21 eu me mataria.

e o ponto virou ponto de interrogação. 

posted 4 months ago with 1 note

tickling noise

O som constante, rítmico, persistente, quase onipresente.

Tento sobrepor com as camadas de som da vida. Me ocupo sempre em todos os níveis para que eu não ouça o som que me acompanhada sempre no fundo.

Um irritante tic tac.

Às vezes eu penso que é uma contagem regressiva. Tento afastar esse pensamento, mas o tic tac acompanha os segundos de insônia e as longas horas de paranóia.

Ou pode ser só a passagem do tempo (que por si só já é um prelúdio de morte).

Seja qual forem as unidades de tempo dessa contagem, o que me perturba é que há algo sendo medido.

A cada instante.

posted 5 months ago

querida a.h.

Escrevo-lhe essa carta com necessidade e voracidade, que peço que perdoe os borrões que a minha escrita canhota sempre trás. Nunca fui acostumada às cartas. Antes, quando tinha uma nas mãos, abri-la era desarmar uma bomba. Pois uma carta aberta passa dia e noite ansiando por uma resposta, e como minhas respostas eram curtas e monótonas, não podia correr o risco de abrir um objeto tão perigoso. Quem abriu um pouco de luz e me fez ver que uma resposta curta ainda era valiosa foi você com os seus bilhetes quase telegráficos. Esperava cada dia ansiosamente pelos bilhetes que era cuidadosamente inseridos no vão que ficava na parte inferior da janela. Agora, aqueles dias de verão que nunca acabavam, seja por causa do tédio, seja por causa das milhões de aventuras que tivemos, chegaram a um ponto final. Estou a várias milhas de distância e meu coração deseja saber que ainda posso encontrá-la em algum lugar. Sinto terrivelmente a sua falta. 

Você sabe onde me encontrar agora,

V.S.

posted 5 months ago

origami

fechava as mãos

e sentia os dedos dobrarem-se 

com a intensidade que ninguém sentiria

fechava os olhos

e via as pálpebras desdobrarem-se

e via a escuridão que ninguém veria

respirava fundo

sentindo os pulmões encherem-se de ar

como as dobraduras de balão que fazia

respirou ainda mais fundo

antes de abrir as duas cicatrizes 

e mergulhar (desdobrando-se) na água

posted 6 months ago

"It’s much easier to not know things sometimes. Things change and friends leave. And life doesn’t stop for anybody. I wanted to laugh. Or maybe get mad. Or maybe shrug at how strange everybody was, especially me. I think the idea is that every person has to live for his or her own life and than make the choice to share it with other people. You can’t just sit their and put everybody’s lives ahead of yours and think that counts as love. You just can’t. You have to do things. I’m going to do what I want to do. I’m going to be who I really am. And I’m going to figure out what that is. And we could all sit around and wonder and feel bad about each other and blame a lot of people for what they did or didn’t do or what they didn’t know. I don’t know. I guess there could always be someone to blame. It’s just different. Maybe it’s good to put things in perspective, but sometimes, I think that the only perspective is to really be there. Because it’s okay to feel things. I was really there. And that was enough to make me feel infinite. I feel infinite."
The Perks of Being a Wallflower, Stephen Chbosky.
posted 6 months ago

Re: Tegami

Querida eu do passado,

Eu não sei se esta já era a hora de responder à sua adorável carta, mas imersa nos textos do meu passado, tentando descobrir quem eu era, encontrei o texto e me senti compelida a emitir uma resposta. E depois mais outra e mais outra, assim sucessivamente no futuro para poder lembrar quem eu fui e quem eu sou.

A maneira como escreve é doce e única, de uma maneira que a minha existência calejada não consegue reproduzir mais. Acontece este tipo de coisa, a gente cresce e alguma parte do universo infinito de coisas morre dentro da gente. Porque crescer é ir morrendo aos poucos. Mas também é ir vivendo, afinal. 

Fui pega de surpresa por todas as perguntas feitas. E pelo apoio. Estava me encarando de forma pessimista até o momento e não tinha percebido que a coisa mais valiosa que fiz até aqui foi continuar seguindo em frente. Só eu e você (que sou eu mesma) sabemos o quanto é valioso o ato de viver. Quando as pessoas respondem “tô indo” quando as pergunto se estão bem, não posso deixar de rir pelo fato de que tenho que me lembrar de “ir” todos os dias. E muitas coisas além da minha vontade agora me fazem seguir este caminho. Sinto, cada vez mais, que estou mais distante de uma desistência. 

E no fim, no fim, vestibular era o menor dos problemas, eu do passado. Fica a dica. 

E sim, as coisas ainda doem e são muito maiores do que uma bobagem. Mas faz parte de ser humano. As coisas doem. As juntas doem. Se você ficar muito tempo sem óculos começa a ficar com dor de cabeça. Ser humana, respirar e estar viva dói. E isso é (conflitos internos para escrever) a melhor e pior coisa de ser humano ao mesmo tempo. Afinal, a não dor só é incrível por não ser dor. Ainda trabalhando na questão das distrações. 

As idéias somem, se reconstroem, morrem e renascem em um ritmo frenético na minha mente. E foi assim com todas as “idéias” das quais você possa estar falando. Inclusive, amor. Porque amor é uma ideação, então é normal que as concepções e aspirações sobre este mudem. E devo dizer: estou na véspera (espero) de sair do armário, fique tranquila eu do passado hahaha 

Sobre cabelo: por que diabo eu ia deixar de ter cabelo colorido? É tipo ter uma tela em você mesmo que você pode trocar quando enjoar. E fazer coisas incríveis. E estragar. E cortar, e deixar crescer, e sonhar com uma cor, ela dar errado, mas ficar legal mesmo assim. 

Futuro profissional: escolhi Design, entrei na Júnior e foi a melhor coisa na minha vida até então. Quem diria, srta. eu do passado que tinha medo até de estagiar porque tinha que emitir boletos, que eu ia cuidar de toda a parte financeira. Que loucura, cara! Mas a melhor loucura do mundo.

Agora, devo deixar aqui minhas perguntas para a Yanne um pouquinho mais distante que agora, de forma resumida: Intercâmbio, deu boa? Saiu do armário? (diz que sim, porque por favor né, chega) Tudo o que ainda dói, é mais fácil de se lidar? Onde estão os seus amigos agora? Você está feliz com o momento da vida em que se encontra? 

E, de novo, a melhor coisa é seguir em frente. Obrigada por existir, futuro.

O “eu” de um passado menos distante, não tão adulta assim à beira de seus 21 anos. 

posted 6 months ago with 3 notes

fishbowl

Há talvez um ou vários momentos em sua vida em que você se vê sem possibilidades de caminhos a seguir. As restrições começaram muito antes. “Você não pode fazer isso”, “Isso não é certo”, “Isso não é coisa de menina”, “Você não precisa desse tipo de coisa”, “Você apenas quer atenção”, e muitas outras frases que se aplicam melhor à sua própria vida do que a da autora. Pouco a pouco, você vê as paredes invisíveis se formando ao seu redor. E, no momento em que percebe que não há mais como fugir do aquário, você percebe que já se machucou o suficiente. Aceitação. “A vida é assim mesmo”. Ou, negação: “Eu crio o meu próprio mundo”. E pela negação da realidade, pela imersão em mundos que não existem, pela sua constante criação de mundos onde você não está no aquário, você percebe que está se afogando nas suas próprias mentiras. Você está sufocando agora porque, pelo medo do que acontece além do aquário, você criou as fantasias nas quais não pode viver. E agora, elas estão tão enraizadas em você que é difícil dar qualquer fim a elas do que a agonizante morte do tornar-se adulto. 

posted 6 months ago with 1 note

"In our world, that’s the way you live your grown-up life: you must constantly rebuild your identity as an adult, the way it’s been put together is wobbly, ephemeral, and fragile, it cloaks despair and, when you’re alone in front of the mirror, it tells you the lies you need to believe."
The Elegance of the Hedgehog, Muriel Barbery
posted 6 months ago

fascinação

veio de surpresa

ou tão surpresa quanto pode ser a longa espera 

foi a maré quem a trouxera

em um pôr-do-sol quente

daquelas onde a respiração se enrola em nós mesmos

e nos falta fôlego para ver as coisas

e mesmo assim eu vi, dentre todas as poesias

encontrei aquela em que o coração doía

porque a cada batia

eu sentia aquela batida que escapava

e sabia que era porque a poesia não me falava

se um dia você viria mesmo a ser minha 

(meu único desejo é enlaçá-la em outro pôr-do-sol e te mostrar todas as cores do céu infinito)

posted 6 months ago with 1 note