Era você, você mesmo. Que com um grito rasgava o céu pela metade. Nos teus olhos eu nunca saberia o que era onda maligna ou delírio medíocre. Eras tu. No momento em que teus braços comprimiram a minha falta de vontade e me jogaram no vai-e-vem do tempo morto. Morri a cada segundo que me pedia para ficar, eu fugia apenas pela birrenta vontade de contrariá-lo. Eu agüentava o seu grito. Eu lhe agüentaria de qualquer forma. Porque era minha forma de ser criança para sempre, apesar de cada ponteiro do relógio me indicar minha próxima provável morte.
E eu fugi. Não vi nenhum raio no céu cinzento, apenas a chuva fina que me pedia pra voltar. Já não havia mais volta. Pisando nas poças de lama da vida, eu já estava perdida no futuro e você era o passado. O passado como o mar. Queria me afogar, mas não havia praia onde pudesse morrer em paz e nem areia que pudesse me enterrar definitivamente. O passado a gente deixava pra trás, pra atormentar a gente quando não houvesse ninguém por perto. O passado a gente guarda pr’aquela hora insone onde o frio promete nos congelar até a morte.
Mesmo assim. Eu fugi. E você continuava sendo você. E tu ainda eras tu.
Uma palavra, distinta de seu significado, para expressar a situação onde me encontro na linha tênue entre delírio e babaquisse.
Todas as coisas que não machucam, eu queria que você as sentisse. A anestesia, eterna anestesia. Busquei a cura para a dor e me perdi em meio dela, no mundo insosso. A dor é necessária para sentir? Nego a dor com um grito da fúria inexistente, enquanto as paredes do aquário de apertam cada vez mais. Não sou um espírito livre, liberdade é só um nome tolo que inventaram no meio do caminho para mim, as amarras me corroem e me consomem até o último instante. Mesmo assim não a dor. O sangue que deveria me causar asco é apenas uma imagem numa tela quebrada. Ah, todas as coisas que não machucam, gostaria que nós conseguimos sentir. Se eu fosse livre, correria e correria até a dor ser insuportável. Buscaria conforto e segurança. Mas estou presa e anestesiada. Ah, as coisas que não são sentidas um dia irão me devorar se eu não as decifrar primeiro.
Fiquei a procura de uma palavra, frase, texto ou livro que definisse este estado. Mas a linguagem é limitada para o amplo mundo dos pensamentos, Wittgenstein me corrija. Nos meus pensamentos, imagens em loop tentam me mostrar um caminho. Um livro estranho. Eu, olhando pela janela do ônibus, mas a vista tão desfocada que só via a mim mesma. Uma vontade estranha. Os dois furos que me olharam como dois olhos cravados naquela contra-capa. A seqüência de notas em crescendo que me trazia sensações tão controversas. Um mundo que não é meu e nem o compreendo. O amor rejeitado de um filósofo. O sentimento de não pertencer. Pensar sobre minha duração neste mundo. Pessimismo só por rebeldia. Um saudade que nunca sai, por mais que eu a rasgue e dilacere. Não existe uma frase, palavra ou livro que ponha todos esses elementos em ordem ou sintonia.
Sigo meu caminho sem saber, só pedindo silenciosamente para não cair.

(desafio de cartas, pra escrever quando quiser e pra quem eu quiser. porque sou teimosa e não sei seguir regras)
#1: Carta para a tua melhor amiga os melhores amigos
Por mais que nos encontremos, os vejo muito menos vezes do que gostaria. Por mim, os veria todos os dias e conversaríamos até enjoar das presenças uns dos outros. A gente ia rir, chorar, brigar, fazer as pazes, rir mais um pouquinho. Mas, infelizmente, o tempo onde eu podia estar com mais frequência ao lado de vocês já não é este.
Sinto falta de tudo, mas a falta de tudo me faz amar cada dia mais cada um de vocês. É difícil amar tanto pessoas que não estão por perto quando a gente quer, a saudade aperta e quase me sufoca. É difícil não poder dar uma bronca pessoalmente em vocês quando vocês merecem, nem comer brigadeiro e falar mal do mundo sempre que precisarem. Vocês sempre serão meus bobos e bobas preferidos.
Não precisa se perguntar “será que estou incluído em ‘vocês’?”. Sim, está. Está e para sempre. Para quem está longe e para quem não está tão longe assim.
Estava quase sem voz, meus dedos erravam as cordas no violão. As lágrimas que achava ter matado percorriam meu rosto. Minha garganta doía, mas nada me faria parar de cantar aquela música até o fim.
Porque ninguém se lembrava daquela música, mas os sentimentos nela ainda eram os meus. E a música nem era minha. Incapaz de ser poeta e de fazer música, tomava a criatividade alheia para me fazer ser. E, me fazendo ser, eu ia até o infinito e voltava. Eu desafinava, perdia a voz, errava as notas, colocava vibrações desnecessárias. Eu era a imperfeição personificada. Eu era completamente eu mesma. Eu era apenas mais uma na multidão. Eu era o mundo inteiro.
As lágrimas não me deixavam enxergar nada, mas nada que eu pudesse enxergar naquele momento seria necessário. Nas músicas desafinadas estavam os corações puros.
Oh, can’t it be / The voices calling me / They get lost and out of time / I should’ve seen it glow / But everybody knows / That a broken heart is blind
Talvez, Lady, se gritarmos mais alto por ajuda, eles nos ouvirão e virão nos resgatar.
É impossível, Bird. O tempo onde eles poderiam nos escutar já se foi. Aqui só há frio, escuro e solidão. E você. Mesmo que eu grite, apenas você poderá me ouvir e de nada adianta minha voz já rouca para nos tirar do meio de nossa própria loucura. Não podemos sair, porque já morremos no meio dela. Nos afogamos no meio dessa loucura que é a vida e não podemos contar com nenhuma ajuda. Temos que continuar inertes no meio dessa correnteza, ninguém vai parar para nos tirar do fluxo.
Estou presa por barreiras invisíveis. Vejo o mundo distorcido para além dessas paredes e desejo ser parte dele. Sou igualmente disforme e desfigurada, fazer parte dele seria finalmente ser parte de alguma coisa. Parte da massa, irreconhecível, anônima. Mas, pelo contrário, minha existência desigual coexiste com o que lhe é diferente. As formas perfeitas, os sonhos quase impossíveis, o sorriso bobo e torto. E no meio disso que está aprisionada minha existência, nada sou eu.
Morreria afogada na felicidade alheia. Quero fugir para o mundo onde ninguém saberia quem sou - mas tudo é impossível. Quantas vezes eu morreria para sair do aquário? Quantas vezes as feridas se abririam - as odeio tanto quanto as amo - antes que eu pudesse escapar daquela prisão invisível?
Minha vista se embaça novamente, as linhas ficam tortas. Tento escrever e o que me falta não é a palavra, é a forma. Cada frase minha mergulha num abismo e se perde no infinito, enquanto meus gritos ecoam tentando resgatá-las de sua morte. Morre parte de mim a cada tentativa ineficiente de alcançar o tom certo, sinto as garras das palavras não ditas arranhando minha garganta. Fecho meus olhos, na torpe tentativa de fugir para um sonho bom e me encontro comigo mesma, tão frágil e tão assustadora. Me pergunto como foi que tudo virou este rodopio e se mesmo com a tontura vou conseguir me manter em pé. A pergunta balança o mundo ao meu redor, não sei o que caiu e o que quebrou. Mero e breve conflito mental. Me deito por preguiça de lutar.
Faltam trechos, palavras e música. No destoante da vida minha voz rouca quase sem força tenta entoar aquela canção que ninguém mais vai lembrar o que significava para mim.
Mas sempre falta alguma coisa, então está tudo normal. Enquanto eu tiver um fiapo de voz e uns pedaços de coração, vou cantar fora do tom só pra quem realmente importa ouvir.
O vento frio seca a garganta, mas não seca o que tem aqui dentro. É muito mais do que voz e música, é muito mais do que tudo ao meu redor. É tão grande que chega a doer nas minhas cordas vocais. As notas tremem num vibrato não esperado e dentro de mim tudo estremece. Ah, o que a abstinência não traz a tona…
Perdi alguns pedaços de mim quando menos esperava. Ah, queria reconstruir-me, mas as peças quebradas já não podiam mais ser reparadas ou substituídas. Sem elas, sou cada vez menos indivíduo, cada vez mais parte do mundo. Pré-sucata querendo ter voz e opinião. Movo meus dedos, verificando se as peças faltantes também impedem que eu me mexa, mas tudo parece bem. Tudo parece bem. É só no lado de dentro que as coisas estão uma bagunça. Em alguma parte do meu sistema existe uma contagem regressiva até que eu pare de funcionar. Todo mundo tem essa contagem, então está na mesma. Tudo na mesma. Parece que uma de minhas partes quebradas me faz repetir esses trechos, apenas para ressaltar que já não posso mais ser reparada.
But inside, you’re just a little baby
It’s okay to say you’ve got a weak spot
You don’t always have to be on top
Better to be hated than love, love, loved for what you’re not
( I am not a Robot - Marina & The Diamonds)
Era novamente o mesmo sonho. Pela décima quinta vez ao longo daqueles dois meses, era novamente o mesmo sonho.
Senti o movimento agradável da correnteza em meus pés. A água, até minhas canelas, era cristalina e podia observar as pedrinhas e cascalho mudarem de direção a cada segundo. Fora isso, não havia mais nada naquele lugar. O horizonte completamente em branco e a luz intensa, como um estúdio de fotografia.
Observei-a de longe, como fizera em todas as outras noites. Pálida e usando um vestido branco, quase se confundindo com o horizonte. Usava os cabelos castanhos em um corte quase masculino, mas que não tirava a delicadeza que ela carregava consigo. A via com um punhado de flores em mãos, que ela abandonava sem pretensão sobre as águas.
Ela não olharia para mim a não ser que eu a chamasse. Foi o que fiz. Senti vergonha do meu grito logo que o fiz, quando observei a frágil garota derrubar todas as flores restantes na água antes de se virar para mim. A correnteza trouxe suas flores até mim, onde as recolhi com cuidado. Olhei no fundo de seus olhos, de um tom tão claro que quase reluziam para mim.
Nosso encontro, para mim, era praticamente rotineiro. Estendi, como de hábito, as flores para a menina. Ela as olharia antes de voltar a me encarar. Era engraçado, como eu conhecia cada um de seus gestos melhor do que meus próprios gestos. Eu poderia alterar qualquer coisa naquele sonho, mas alguma parte de mim impedia-me de desfigurar qualquer coisa naquele cenário.
Era como se aquele sonho fosse uma mera lembrança do passado. Poderia repassá-lo quantas vezes quisesse em minha mente, mas não poderia de nenhuma forma alterá-lo. Alterá-lo seria abandonar quem sou e minha covardia não me permitiria ser ninguém menos do que eu mesmo.
Dor física e dor emocional têm muito em comum. O que mais difere entre elas é a duração e a maneira como ocorrem. Um dia, antes de dormir, estava refletindo sobre minha hipersensibilidade, quando encontrei um paralelo perfeito para ser feito com ela.
1- O primeiro passo para lidar com a dor é você aceitar que ela existe. Imagine que você espeta o dedo em um espinho. O primeiro instinto do seu corpo é retrair os músculos da mão e do braço para que você se afaste do espinho. Caso você resolva fingir que o “espinho” não está te machucando, seu corpo não enviará os estímulos necessários para afastar-se do objeto que lhe causa dor.
2- Após aceitar que a dor existe, você deve ter em mente que toda dor tem um tempo de duração. Porque, afinal, a dor emocional não é um mero espinho do qual você se afaste e tudo fica bem. É melhor comparada à uma dor muscular. Você não tem do que se afastar, nem consegue encontrar uma posição que diminua sua dor. No entanto, aquela dor tem uma hora para acabar. Pode não ser amanhã que você vai ficar bem, mas com certeza haverá um dia em que você ficará bem.
3- Existem remédios para dor, existe gelo, existe o beijo da sua mãe dizendo que vai sarar. Procure conforto, procure consolo. Amigos, família, música, escrita, livros… Enfim, o que você quiser e o que lhe fizer sentir-se bem. Talvez a sua dor não passe apenas com esse conforto, mas saiba que ele é muito importante para aliviá-la. Mantenha em mente: você sabe que a dor existe, você sabe que um dia ela vai acabar e você deve procurar maneiras de amenizá-la.
4- Não fique obcecado pela sua dor. Parece absurdo, mas é muito comum. Quando você passa muito tempo com uma dor, você aprende suas particularidades. Aprendendo essas particularidades, você acaba ficando obcecado por ela. Você acaba, inclusive, gostando dela de certa maneira. Porém, lembre-se que a dor é um modo de sobrevivência. Se você a sente, algo está errado e deve ser corrigido. Se você a infere a si mesmo, algo dentro de você deve ser corrigido.
5- Sorria, sempre que possível. Chore, somente se realmente precisar. E lembre-se que existem outras coisas na vida além da sua dor. Esse talvez, seja um conselho idiota. Mas, sempre que senti alguma dor muito forte, minha mãe me aconselhou a não reprimir o grito, desde que ele seja extremamente necessário. Apesar disso, eu não sou fresca. Já reprimi muitas lágrimas de dor, muitos gritos, em troca de um sorriso. Porque, avaliando as necessidades da ocasião, meu grito não faria sentido algum. Existem pessoas e um mundo inteiro ao meu redor, e um sorriso é quase sempre a melhor opção.
A dor é passageira, os laços que construímos são muito mais duradouros.
Sou inevitavelmente, parte deste todo. Uma pequena e ínfima parte, ligada a outras ínfimas partes. Então, a pergunta: será que, em outra parte qualquer do mundo as batidas do coração de alguém estão no mesmo ritmo que as minhas? Com apenas o silêncio da noite para me fazer companhia, eu escuto com atenção. As batidas, em um ritmo quase constante, quebrado por uma mísera batida falha. Mas ela é uma constante também, assim como as falhas em nossas próprias vidas são constantes em meio aos acertos. De novo, a batida falha. Me pergunto se mais alguém está prestando atenção à sua própria pulsação naquele momento. Não consigo dormir porque tenho (novamente) milhões de perguntas em minha mente. 1, 2, 3, 4… Falhou de novo. O mundo é confuso, a vida é confusa e meu coração que escapa batidas é ainda mais confuso.
E eu aprecio muito isso.