fishbowl

Há talvez um ou vários momentos em sua vida em que você se vê sem possibilidades de caminhos a seguir. As restrições começaram muito antes. “Você não pode fazer isso”, “Isso não é certo”, “Isso não é coisa de menina”, “Você não precisa desse tipo de coisa”, “Você apenas quer atenção”, e muitas outras frases que se aplicam melhor à sua própria vida do que a da autora. Pouco a pouco, você vê as paredes invisíveis se formando ao seu redor. E, no momento em que percebe que não há mais como fugir do aquário, você percebe que já se machucou o suficiente. Aceitação. “A vida é assim mesmo”. Ou, negação: “Eu crio o meu próprio mundo”. E pela negação da realidade, pela imersão em mundos que não existem, pela sua constante criação de mundos onde você não está no aquário, você percebe que está se afogando nas suas próprias mentiras. Você está sufocando agora porque, pelo medo do que acontece além do aquário, você criou as fantasias nas quais não pode viver. E agora, elas estão tão enraizadas em você que é difícil dar qualquer fim a elas do que a agonizante morte do tornar-se adulto. 

posted 6 months ago with 1 note

Liberdade

Muito tempo após ainda procuro o real significado do meu nome. Tentei defini-la como a não-existência dos limites, mas a própria existência é limitante. Para isso, voltamos  ao mergulho. A fixação pelo mar e pela falsa liberdade prometida. E vamos ao inverso dele: o vôo. Abrindo as minhas asas feridas, voei por sobre o mar e vi o quando ele se parecia com a terra firme. Porque nele eu ainda senti a maior das prisões: o espaço do meu próprio corpo.

Eu estava limitada pelos próprios contornos da minha existência e não havia nada que eu pudesse fazer. Não havia mergulho que fosse estender a minha essência para o movimento do vai-e-vem das ondas, por mais que eu as sentisse tomando conta de mim. Eu era limitada por existir e isso me perturbava pela escolha infeliz de nome. Porque com ele eu agarrei toda a minha esperança de que algo grande estava reservado para mim. Mas nada nunca seria grande, não o suficiente, porque para sentir a grandiosidade eu estava presa às sensações na minha pele, à luz entrando pelos meus olhos, aos sons se espalhando no ar. 

Do meu vôo, mergulhei até tocar o fundo do oceano e lá permaneci. Sentia o peso inteiro em cima de meus ombros. Via a visão se fechando, desaparecendo na periferia. Guardava em mim um anseio e uma vontade, porque sabia que a única maneira de me tornar realmente liberdade era não a sendo. 

Permaneci mais algum tempo no paradoxo. 

posted 6 months ago with 2 notes

talvez uma nova pausa randômica

"Tem que dar pra conviver" porque a nossa existência é por natureza torta e intragável. Vamos nos arrastando pelo fluxo de tempo procurando algo que nos mantenha firmes, nos agarramos aos fios de esperança enquanto vamos nos quebrando pouco a pouco. E a cada quebra, uma viagem turbulenta pela vida até acharmos outro ponto de apoio. 

Esse pensamento sempre me trouxe ao fato de que minha existência se esfarelava mais rápido do que as outras. A cada vez que eu me partia, tinha cada vez mais certeza que estava próxima de me partir por completo. Ensaiava as cartas que deixaria sobre os meus cacos, mas por não conseguir escolher um destinatário deixei-as todas anônimas.

Mesmo assim, dentro de mim ainda gritavam pelas paredes os nomes de quem eu queria que me visse de verdade e, pela invisibilidade forçada, eu quebrava e me desfazia em migalhas. Queria que vissem os meus remendos e me reparassem de todas as vezes que eu me espatifara, mas eu sempre pareci mais inteira do que jamais fui. Olho para a minha pele e vejo minhas novas rachaduras.

Quanto tempo eu tenho até que eu me quebre mais uma (última) vez?

posted 7 months ago with 1 note

algumas mariposas batendo na lâmpada do teto

Segurava o cigarro torto e desajeitado entre os dedos. Tragava de vez em nunca, esperando algum que algum alívio fluísse por seus pulmões, mas conseguia apenas a tosse insistente de quem se afunda no vazio. Fitava sem olhar a mesa de centro, sem saber quantas vezes sua mente iria dar voltas pelo mesmo ponto da sala. Fitava a pessoa adormecida na cama, com aperto no peito de partir. Mas a vida lhe dava as mesmas rasteiras de sempre e sabia que se não se levantasse da poltrona e largasse sua pretensão de fumo, estaria perdida para sempre em algo que não conseguia ainda por completo mergulhar.

Bateu a porta quando abandonou o apego no quarto de hotel. Soltou-se das correntes e voou como sempre voara, apenas para bater em outra lâmpada como a mariposa que sempre fora: fugia com as asas quebradas apenas para lembrar-se de que voava. Realizava suas vontades, no calor atraente da luz, apenas para voar de janela em janela. Voava e afundava, morria em pouco tempo para viver outras vidas. 

posted 8 months ago with 1 note

carta sem remetente #1

começar a carta com querido não se encaixaria com você. começar a carta com querido apenas se afundaria nos milhares de clichês dos quais debochamos. afundada aí, a carta e seu conteúdo já morrem por si só.

conheço seu desgosto por poemas, pois das mil interpretações que lhe pertencem, pertebe-se uma destruncada e nunca vê-se nada em comum. entretanto, esta carta não deixa de ter mil significados da qual eu espero que você tire um, acredite nesse um, se agarre com força nesse um. os outros novecentos e noventa e nove tenho no coração e aguardo oportunidade para lhe entregar.

em algum dia do outono eu percebi que eu já não caminhava apenas por mim mesma. nesse dia de outono pisei em uma folha seca e percebi que ainda tinha a capacidade de me apaixonar, reapaixonar, repetir frases, repetir o que você fala, colocar umas vírgulas fora do lugar. no dia de outono essa carta se tornou sua, apenas pelo motivo de que eu queria que a carta fosse sua. as folhas viraram mil significados diferentes e só um deles é seu. no entanto, os outros novecentos e noventa e nove tento desajeitamente te entregar. queria que junto deles você se apossasse disso que bate desesperadamente em meu peito, pois ele parece querer não pertencer mais somente a mim. 

a dita carta vem a você sem remetente. o anonimato que parece tosco me veste bem porque tenho medo. não quero respostas se for para ver você ir embora. quero as respostas se for para que eu vá a algum lugar.

posted 12 months ago with 1 note

tu, o passado, e o maldito céu chuvoso de manhã

Era você, você mesmo. Que com um grito rasgava o céu pela metade. Nos teus olhos eu nunca saberia o que era onda maligna ou delírio medíocre. Eras tu. No momento em que teus braços comprimiram a minha falta de vontade e me jogaram no vai-e-vem do tempo morto. Morri a cada segundo que me pedia para ficar, eu fugia apenas pela birrenta vontade de contrariá-lo. Eu agüentava o seu grito. Eu lhe agüentaria de qualquer forma. Porque era minha forma de ser criança para sempre, apesar de cada ponteiro do relógio me indicar minha próxima provável morte.


E eu fugi. Não vi nenhum raio no céu cinzento, apenas a chuva fina que me pedia pra voltar. Já não havia mais volta. Pisando nas poças de lama da vida, eu já estava perdida no futuro e você era o passado. O passado como o mar. Queria me afogar, mas não havia praia onde pudesse morrer em paz e nem areia que pudesse me enterrar definitivamente. O passado a gente deixava pra trás, pra atormentar a gente quando não houvesse ninguém por perto. O passado a gente guarda pr’aquela hora insone onde o frio promete nos congelar até a morte.


Mesmo assim. Eu fugi. E você continuava sendo você. E tu ainda eras tu.

posted 1 year ago with 2 notes

Porra.

Uma palavra, distinta de seu significado, para expressar a situação onde me encontro na linha tênue entre delírio e babaquisse. 

posted 1 year ago with 3 notes

running up that hill

Todas as coisas que não machucam, eu queria que você as sentisse. A anestesia, eterna anestesia. Busquei a cura para a dor e me perdi em meio dela, no mundo insosso. A dor é necessária para sentir? Nego a dor com um grito da fúria inexistente, enquanto as paredes do aquário de apertam cada vez mais. Não sou um espírito livre, liberdade é só um nome tolo que inventaram no meio do caminho para mim, as amarras me corroem e me consomem até o último instante. Mesmo assim não a dor. O sangue que deveria me causar asco é apenas uma imagem numa tela quebrada. Ah, todas as coisas que não machucam, gostaria que nós conseguimos sentir. Se eu fosse livre, correria e correria até a dor ser insuportável. Buscaria conforto e segurança. Mas estou presa e anestesiada. Ah, as coisas que não são sentidas um dia irão me devorar se eu não as decifrar primeiro. 

posted 1 year ago with 1 note

síntese

Fiquei a procura de uma palavra, frase, texto ou livro que definisse este estado. Mas a linguagem é limitada para o amplo mundo dos pensamentos, Wittgenstein me corrija. Nos meus pensamentos, imagens em loop tentam me mostrar um caminho. Um livro estranho. Eu, olhando pela janela do ônibus, mas a vista tão desfocada que só via a mim mesma. Uma vontade estranha. Os dois furos que me olharam como dois olhos cravados naquela contra-capa. A seqüência de notas em crescendo que me trazia sensações tão controversas. Um mundo que não é meu e nem o compreendo. O amor rejeitado de um filósofo. O sentimento de não pertencer. Pensar sobre minha duração neste mundo. Pessimismo só por rebeldia. Um saudade que nunca sai, por mais que eu a rasgue e dilacere. Não existe uma frase, palavra ou livro que ponha todos esses elementos em ordem ou sintonia. 

Sigo meu caminho sem saber, só pedindo silenciosamente para não cair. 

posted 1 year ago with 1 note

(desafio de cartas, pra escrever quando quiser e pra quem eu quiser. porque sou teimosa e não sei seguir regras)
#1: Carta para a tua melhor amiga os melhores amigos
Por mais que nos encontremos, os vejo muito menos vezes do que gostaria. Por mim, os veria todos os dias e conversaríamos até enjoar das presenças uns dos outros. A gente ia rir, chorar, brigar, fazer as pazes, rir mais um pouquinho. Mas, infelizmente, o tempo onde eu podia estar com mais frequência ao lado de vocês já não é este.
Sinto falta de tudo, mas a falta de tudo me faz amar cada dia mais cada um de vocês. É difícil amar tanto pessoas que não estão por perto quando a gente quer, a saudade aperta e quase me sufoca. É difícil não poder dar uma bronca pessoalmente em vocês quando vocês merecem, nem comer brigadeiro e falar mal do mundo sempre que precisarem. Vocês sempre serão meus bobos e bobas preferidos. 
Não precisa se perguntar “será que estou incluído em ‘vocês’?”. Sim, está. Está e para sempre. Para quem está longe e para quem não está tão longe assim. 

(desafio de cartas, pra escrever quando quiser e pra quem eu quiser. porque sou teimosa e não sei seguir regras)

#1: Carta para a tua melhor amiga os melhores amigos

Por mais que nos encontremos, os vejo muito menos vezes do que gostaria. Por mim, os veria todos os dias e conversaríamos até enjoar das presenças uns dos outros. A gente ia rir, chorar, brigar, fazer as pazes, rir mais um pouquinho. Mas, infelizmente, o tempo onde eu podia estar com mais frequência ao lado de vocês já não é este.

Sinto falta de tudo, mas a falta de tudo me faz amar cada dia mais cada um de vocês. É difícil amar tanto pessoas que não estão por perto quando a gente quer, a saudade aperta e quase me sufoca. É difícil não poder dar uma bronca pessoalmente em vocês quando vocês merecem, nem comer brigadeiro e falar mal do mundo sempre que precisarem. Vocês sempre serão meus bobos e bobas preferidos. 

Não precisa se perguntar “será que estou incluído em ‘vocês’?”. Sim, está. Está e para sempre. Para quem está longe e para quem não está tão longe assim. 

posted 1 year ago

a broken heart is blind

Estava quase sem voz, meus dedos erravam as cordas no violão. As lágrimas que achava ter matado percorriam meu rosto. Minha garganta doía, mas nada me faria parar de cantar aquela música até o fim.

Porque ninguém se lembrava daquela música, mas os sentimentos nela ainda eram os meus. E a música nem era minha. Incapaz de ser poeta e de fazer música, tomava a criatividade alheia para me fazer ser. E, me fazendo ser, eu ia até o infinito e voltava. Eu desafinava, perdia a voz, errava as notas, colocava vibrações desnecessárias. Eu era a imperfeição personificada. Eu era completamente eu mesma. Eu era apenas mais uma na multidão. Eu era o mundo inteiro. 

As lágrimas não me deixavam enxergar nada, mas nada que eu pudesse enxergar naquele momento seria necessário. Nas músicas desafinadas estavam os corações puros. 

Oh, can’t it be / The voices calling me / They get lost and out of time / I should’ve seen it glow / But everybody knows / That a broken heart is blind

posted 1 year ago with 1 note

os gritos sufocados pelas paredes criadas por meus sorrisos

Talvez, Lady, se gritarmos mais alto por ajuda, eles nos ouvirão e virão nos resgatar. 

É impossível, Bird. O tempo onde eles poderiam nos escutar já se foi. Aqui só há frio, escuro e solidão. E você. Mesmo que eu grite, apenas você poderá me ouvir e de nada adianta minha voz já rouca para nos tirar do meio de nossa própria loucura. Não podemos sair, porque já morremos no meio dela. Nos afogamos no meio dessa loucura que é a vida e não podemos contar com nenhuma ajuda. Temos que continuar inertes no meio dessa correnteza, ninguém vai parar para nos tirar do fluxo. 

posted 1 year ago with 1 note

aquário

Estou presa por barreiras invisíveis. Vejo o mundo distorcido para além dessas paredes e desejo ser parte dele. Sou igualmente disforme e desfigurada, fazer parte dele seria finalmente ser parte de alguma coisa. Parte da massa, irreconhecível, anônima. Mas, pelo contrário, minha existência desigual coexiste com o que lhe é diferente. As formas perfeitas, os sonhos quase impossíveis, o sorriso bobo e torto. E no meio disso que está aprisionada minha existência, nada sou eu. 

Morreria afogada na felicidade alheia. Quero fugir para o mundo onde ninguém saberia quem sou - mas tudo é impossível. Quantas vezes eu morreria para sair do aquário? Quantas vezes as feridas se abririam - as odeio tanto quanto as amo - antes que eu pudesse escapar daquela prisão invisível? 

posted 1 year ago with 1 note

Minha vista se embaça novamente, as linhas ficam tortas. Tento escrever e o que me falta não é a palavra, é a forma. Cada frase minha mergulha num abismo e se perde no infinito, enquanto meus gritos ecoam tentando resgatá-las de sua morte. Morre parte de mim a cada tentativa ineficiente de alcançar o tom certo, sinto as garras das palavras não ditas arranhando minha garganta. Fecho meus olhos, na torpe tentativa de fugir para um sonho bom e me encontro comigo mesma, tão frágil e tão assustadora. Me pergunto como foi que tudo virou este rodopio e se mesmo com a tontura vou conseguir me manter em pé. A pergunta balança o mundo ao meu redor, não sei o que caiu e o que quebrou. Mero e breve conflito mental. Me deito por preguiça de lutar. 

posted 1 year ago with 1 note

abstinência

Faltam trechos, palavras e música. No destoante da vida minha voz rouca quase sem força tenta entoar aquela canção que ninguém mais vai lembrar o que significava para mim. 

Mas sempre falta alguma coisa, então está tudo normal. Enquanto eu tiver um fiapo de voz e uns pedaços de coração, vou cantar fora do tom só pra quem realmente importa ouvir. 

O vento frio seca a garganta, mas não seca o que tem aqui dentro. É muito mais do que voz e música, é muito mais do que tudo ao meu redor. É tão grande que chega a doer nas minhas cordas vocais. As notas tremem num vibrato não esperado e dentro de mim tudo estremece. Ah, o que a abstinência não traz a tona…

posted 1 year ago