don’t dream, it’s over (project #1)

Era novamente o mesmo sonho. Pela décima quinta vez ao longo daqueles dois meses, era novamente o mesmo sonho.

Senti o movimento agradável da correnteza em meus pés. A água, até minhas canelas, era cristalina e podia observar as pedrinhas e cascalho mudarem de direção a cada segundo. Fora isso, não havia mais nada naquele lugar. O horizonte completamente em branco e a luz intensa, como um estúdio de fotografia.

Observei-a de longe, como fizera em todas as outras noites. Pálida e usando um vestido branco, quase se confundindo com o horizonte. Usava os cabelos castanhos em um corte quase masculino, mas que não tirava a delicadeza que ela carregava consigo. A via com um punhado de flores em mãos, que ela abandonava sem pretensão sobre as águas.

Ela não olharia para mim a não ser que eu a chamasse. Foi o que fiz. Senti vergonha do meu grito logo que o fiz, quando observei a frágil garota derrubar todas as flores restantes na água antes de se virar para mim. A correnteza trouxe suas flores até mim, onde as recolhi com cuidado. Olhei no fundo de seus olhos, de um tom tão claro que quase reluziam para mim.

Nosso encontro, para mim, era praticamente rotineiro. Estendi, como de hábito, as flores para a menina. Ela as olharia antes de voltar a me encarar. Era engraçado, como eu conhecia cada um de seus gestos melhor do que meus próprios gestos. Eu poderia alterar qualquer coisa naquele sonho, mas alguma parte de mim impedia-me de desfigurar qualquer coisa naquele cenário.

Era como se aquele sonho fosse uma mera lembrança do passado. Poderia repassá-lo quantas vezes quisesse em minha mente, mas não poderia de nenhuma forma alterá-lo. Alterá-lo seria abandonar quem sou e minha covardia não me permitiria ser ninguém menos do que eu mesmo.

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it’s not my home anymore (project #1)

Os poucos minutos que se estenderam desde minha decisão até a efetiva saída pela porta foram tão longos que pareciam ter durado horas. O ar estava mais pesado. Ouvia os gritos de meu pai, sem conseguir distinguir daquele som as palavras com as quais ele tentava me ferir. Mais alto do que o som dos gritos para mim era o som de meus sapatos no assoalho da escada. Era como se ecoassem pela casa inteira, pela rua inteira, pela minha vida inteira. Se tem uma lembrança na qual eu poderia me agarrar era o som dos meus sapatos, que tão logo se extinguiu deixou um vazio completo dentro de mim. Sabia que o olhar de minha mãe me aguardava no topo da escada que  eu acabara de descer, mas não tinha forças para me virar para trás. Parei por um breve instante, menos talvez, para respirar fundo e lutar contra mim mesmo até a porta. Pois contra o olhar no topo da escada eu não tinha a mínima chance.

A luta fora mais breve e menos dolorida do que imaginei. Meus dedos tocaram a maçaneta mais fria do que de costume. Com a cautela de quem desarma uma bomba e não a pressa de quem foge de um lar conturbado, virei a maçaneta e me deparei com o mundo de fora. O vento gélido tentou me convencer a ficar, mas eu já havia travado esta luta milhões de vezes e a venci. Em poucos segundos, pisava na grama do jardim de encontro ao meu futuro. Os gritos ainda ecoavam atrás de mim, cada vez menos audíveis.

Era aquela finalmente a liberdade, não era?

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